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Nossos Cantinhos tem o prazer de apresentar à todos...
Eliana Maria Bottas Dourado |
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Inicialmente
quero agradecer o convite de Maristela para participar
deste espaço do Portal. Fiquei muito receosa quanto ao
meu desempenho nesta tarefa, mas resolvi encarar e aqui
estou falando um pouco de mim. Chamo-me Eliana Maria
Bottas Dourado, nasci em 06 de Setembro de 1949 em
Salvador, Bahia. |
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Meu nome foi
uma escolha de minha irmã Jeny que tinha uma amiguinha
chamada Eliana. Jeny que vocês conhecem aqui no Portal
foi a grande incentivadora para que me inscrevesse nos
cursos de PSP. Ela também teve muita influência na minha
adolescência e quando foi estudar em Brasília a
separação foi muito dolorosa para mim. É muito querida,
tem um filho que é um encanto, Ricardo, meu afilhado,
que chamo carinhosamente de Cado. Casou-se com Marcela e
tem uma linda menina, Maria Eduarda e em breve chegará
Joaquim. |
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Meu irmão
chama-se Luiz, ele é incrível, admiro muito, é casado
com Maria Helena e tiveram três filhos: Aloísio, Adriana
(Dri, minha afilhada) e Alexandre. Aloísio casou-se com
Camila e têm dois encantos Aloísio (Luzinho) e Lucas.
Adriana casou-se com Júlio e são os pais de Alice, uma
ternura de criança.Alexandre casou-se com Carol e ainda
não têm filhos. Fui e continuo muito ligada aos
sobrinhos. Construímos laços afetivos apesar da
distância física em que vivemos. Esta foto é de umas
férias em São Paulo quando ainda eram crianças. |
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Meus pais
foram Alice Bottas Dourado e Aloísio Dourado, eles já
não estão conosco há muito tempo. Tive uma ótima
infância e recordo-me muito da vida familiar. Com minha
mãe aprendi: a importância da amizade, ela tinha e
cultivava amigos; aprendi a solidariedade, pois ela
amparava e acolhia os doentes da família. Vários deles
acabaram falecendo em nossa casa. Ela não admitia que
ficassem hospitalizados quando estavam em fase terminal.
Lidar com perdas foi um aprendizado difícil e que teve
inicio muito cedo em minha vida.Também ela me ensinou o
gosto pela leitura e a necessidade da mulher trabalhar
fora do lar e ter salário, ela era bancária. |
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Meu pai foi
meu companheiro das idas a parquinho, circo, cinema,
desfiles militares, festa de largo e praia. Com ele
aprendi: o valor do trabalho, todo trabalho é digno e a
pessoa que o executa merece respeito, nunca aceitou uma
indelicadeza dos filhos para com os empregados da casa.
Aprendi que era necessário estudar para ser
independente, ouvi muitas vezes ele dizer: “filha minha
só vai ser empregada de homem se quiser, vou dar
condição de serem independentes”. Isto me marcou muito.
Com ele também aprendi que a palavra dada vale mais do
que um papel assinado e ainda o valor da verdade e da
honestidade. Essas duas mortes foram as maiores perdas
que tive que suportar.
Meu pai faleceu no dia que completei 18 anos. O mundo
desabou na minha cabeça. Acabei decidindo que superaria
e lutaria por ter uma profissão. Receava muito depender
dos irmãos, não me firmar na vida. Estudei
desesperadamente, virava noite estudando, tinha uma
meta: passar no vestibular da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal da Bahia. Não tinha mais meu pai
para custear os meus estudos e precisava passar numa
faculdade pública. Consegui logo no primeiro vestibular.
Momento de extrema alegria. A felicidade que senti vendo
o meu nome na lista de aprovados foi indescritível, a
compensação de todo o meu esforço. Minha mãe vibrou como
se ela fosse a aprovada. Este momento de alegria, de
vitória foi também um momento de tristeza e de muito
carinho pois, quatro amigos que estudavam comigo, não
obtiveram classificação, perderam o vestibular. O
momento de carinho foi quando apareceram para comemorar
comigo e me disseram: “pelo menos uma de nós passou”,
assim me ensinaram muito, demonstrando o que era ser
amigo.
A Faculdade foi uma época de muito estudo, mas de muita
curtição. As paqueras, os amores, os encontros e
desencontros, as festas de largo e no meio do curso de
Medicina o despertar para a Saúde Pública.
Os amigos com os quais me preparei para o vestibular
acabaram passando em outras escolas e alguns deles
vieram somar com os novos amigos e formamos um grupo com
o objetivo de prestar serviço num lugarejo há 4 h de
lancha de Salvador. Estávamos no quarto e quinto ano de
Medicina. O lugarejo era Conceição de Salinas, lá
tivemos que convencer uma parteira de 100 anos a lavar
as mãos e usar luvas. O convencimento foi impossível.
Hoje reconheço que não tivemos muito tato. Outra tarefa
foi convencer o prefeito que devia fechar um poço usado
pela comunidade como se água fosse muito boa e que ao
ser colhida amostras para exames verificou-se que a água
era contaminada. Conseguimos fechar o poço. Nosso
trabalho era gratuito, nada recebíamos a não ser a
passagem de graça na lancha. A população de pescadores
nos cobria de mimos. Recebíamos frutas, doces e peixes.
Era muito gostoso. À noite fazíamos serenata. Nós
acreditávamos que mudaríamos o mundo.
Nesta época estávamos vivendo em plena ditadura e
soubemos que militares estavam de olho naquele grupo que
não era o único existente nos lugarejos. Precisávamos
ter muito cuidado, não fazer pregação política e começou
a haver divisão, pois havia amigos que queriam o
enfrentamento. Minha mãe estava doente e achei melhor me
afastar deste trabalho e acabou havendo um desânimo e o
grupo se desfez. Lançamos a semente, tempos depois
criaram uma unidade de saúde no local.
Final do curso de Medicina, preparativos para a
formatura e recebo outro golpe, minha mãe morre. Outro
momento de extrema dor. Senti-me sem o chão. Foi
horrível!
Resolvi vir embora para São Paulo, estava brigada com o
mundo. Os primeiros anos em São Paulo foram muito
difíceis, mas acabei fazendo amigos e por intermédio de
uma amiga psicanalista resolvi que precisava elaborar
minhas perdas numa análise para ter saúde mental para
enfrentar a profissão. Nesta época estava fazendo
estagio em Cardiologia na Escola Paulista de Medicina e
acabei por descobrir que a Cardiologia havia sido
escolhida para tentar resolver os problemas de minha mãe
que era cardíaca assim como desvendar a morte de meu pai
que foi um Infarto não diagnosticado a tempo. E aí o que
fazer? Recordei-me do tempo da faculdade do quanto amei
o trabalho em Conceição de Salinas e fui fazer um curso
de Saúde Pública na USP. Mudei o meu caminho. Tempos
depois fiz um curso de Saúde Coletiva na UNIFESP.
Fiz concurso para a Secretaria de Saúde do Estado e
iniciei o trabalho na periferia de São Paulo. Uma parte
da minha vida foi trabalhando em favelas. Há muito
trabalho bonito feito nas periferias, mas não há
divulgação e a violência está crescendo e assustando
quem lá trabalha.
Alguns momentos gratificantes durante esses anos: Um dia
quando trabalhava numa Medicina de Grupo um paciente,
muito simples, pobre, me entregou de presente uma lata
de Goiabada Cica enrolada num jornal dizendo: o dinheiro
só deu para a goiabada. Foi o presente mais
significativo que já recebi de um paciente. Adorei
aquela goiabada.
Numa ocasião enfrentei a mãe de um paciente que não
queria me deixar tratar seu filho de dois anos que tinha
tuberculose. Ameacei-a denunciá-la ao Juizado de menores
e tinha que ir ao barraco diariamente para dar o remédio
à criança. Por fim a mãe se convenceu da necessidade do
tratamento e ela mesma cuidou da criança. Logo depois
engravidou novamente e um belo dia aparece na Unidade de
Saúde com a filha nos braços dizendo ter colocado o meu
nome na criança e que queria que eu fosse a madrinha.
Que sufoco, não tive como escapar. O batizado mereceria
uma crônica, o padrinho escolhido não compareceu e
arranjaram um outro que parecia ser o manda chuva do
pedaço. Arranjei uma dor de cabeça por 15 anos, pois foi
esse o tempo que dei assistência direta à família. Essa
mãe me aprontou muitas e acabei desaparecendo da frente
dela e das cinco crianças. Mas tivemos momentos
agradáveis. Um dia combinei com ela que levaria as
crianças a um parquinho, pois eles me pediram isto.
Claro que tive de comprar os trajes do passeio para os
cinco. No dia combinado fui ao barraco com uma amiga, a
Ionira que me ajudava nessas loucuras. Pegamos as cinco
crianças com as certidões de nascimento e as levamos
para a Cidade da Criança em São Bernardo do Campo. A
alegria daqueles meninos eu nunca mais esqueci. Eles
aprontaram, quiseram sorvetes, correram, brincaram em
vários brinquedos. Saímos de lá no final da tarde e a
Ionira me questionou: O que faremos agora se essa mãe
sumiu e nos deixou os meninos? Gelei e me dei conta do
risco que corríamos, mas nada disto aconteceu. A mãe
estava esperando por eles no local combinado. Repetimos
esse passeio outra vez para o Zoológico. Fiquei por
perto da família até a minha afilhada completar 15 anos,
incentivava o estudo, fornecia material escolar, mas me
afastei depois, pois achei que a mãe estava me
explorando. Começou a pedir muita coisa queria que eu
pagasse plano de saúde, que eu patrocinasse festa de
quinze anos.Um dia ligou no meu trabalho dizendo que
havia feito uma compra de mercado, o caminhão estava
entregando as compras e não tinha dinheiro para pagar,
se eu não fosse lá ela seria presa. Fui até o barraco e
fiz um discurso para ela. Avisei que não repetisse
aquele comportamento, pois eu a deixaria ser presa. Ela
colocava as crianças para me pedir uma infinidade de
coisas. Em fim me senti explorada e aproveitei uma
mudança de local de trabalho e não informei para onde
estava indo. Nunca forneci meu endereço residencial,
pois não confiava na comadre. Acabei perdendo o contato
com os adolescentes na época. Procurei-os depois de um
tempo mas mudavam muito de endereço e não os localizei.
Conheci muitos lugares de difícil acesso durante o tempo
que lhes dei assistência. Hoje sou muito medrosa e não
repetiria as andanças. Valeu a experiência.
Fui a primeira médica e primeira diretora de uma Unidade
de Saúde que amei de paixão e lá trabalhei por 10 anos e
tive momentos incríveis, daria para escrever um livro. A
demonstração de carinho e amizade dos funcionários e da
comunidade quando parti foi muito gratificante. Fui
diretora em outras duas unidades, nas quais permaneci
menos tempo mas também criei laços de amizade que
mantenho até hoje.
Outro trabalho que fiz foi participando de um grupo de
coordenação do projeto Saúde da Família numa Unidade de
Saúde da periferia. Experiência maravilhosa de treinar
pessoas da população para serem agentes de saúde.
Fabuloso! Ali eu me encontrei. Foi uma verdadeira paixão
por este trabalho. Quando deixei esse trabalho foi muito
sofrido e a homenagem que fizeram aos componentes do
grupo me deixou emocionada e sem jeito. Contrataram um
serviço de presente sonoro e chegou uma camionete na
frente da Unidade de Saúde falando os nossos nomes e
lendo textos. Não tive onde me esconder, me deixaram sem
graça, mas muito emocionada.
Gosto de estar apaixonada pelo que faço e como no
momento na vida profissional não há paixão penso em me
aposentar.
Divido apartamento com uma amiga, Ionira, que também faz
Saúde Pública isto é muito bom, trocamos idéias, criamos
atividades. Temos uma linda companheira que é a Loren,
uma cadela Lhasa Apso, é uma paixão. Conviver com a
Loren tem sido um aprendizado da linguagem não verbal.
Há um entendimento mútuo. A volta para casa à noite é
uma doçura, ela é terna, meiga. Nunca pensei que fosse
capaz de me apaixonar literalmente por uma cadelinha. É
uma forma de amor muito linda.
Aprendi que os amigos são nossa segunda família. Sempre
me comunico e me encontro com eles passando momentos
bastante agradáveis. As minhas amizades foram
construídas nos locais onde trabalhei e através desses
amigos houve ampliação do grupo.
Este ano no dia do meu aniversário faleceu uma amiga,
uma pessoa lutadora, alto astral, foi um dia difícil.
Nesse dia revi muitos conhecidos, amigos e ficou comigo
um grande sentimento da transitoriedade da vida. Tudo na
vida é muito rápido.
Falando em amigos tenho que citar a ligação com a babá,
a Iaiá. Pois é, tivemos uma babá, Arlinda é o nome dela,
hoje está com 76 anos, trabalha na casa de uma família
no Rio de Janeiro. Ela foi trabalhar em nossa casa
quando meu irmão (o primogênito) tinha dois anos e saiu
de lá quando eu tinha 15 anos. Deixou-nos porque
mudou-se de Salvador. Ela é negra, está com a cabecinha
alva, chama-me de “minha filha branca”, é uma lembrança
viva da minha infância, todas as vezes que falo com ela
são momentos de ternura. Este ano o primeiro telefonema
dando parabéns pelo meu aniversário foi o dela.
Gosto muito de participar do Portal dos Cantinhos. É a
oportunidade que tenho do contato com o belo, com o
sensível. É um mundo diferente daquele em que trabalho.
Fiz no Portal além do curso de PSP, o de Formatação com
a Zoia e o de Front Page com a Helena Monteiro. Acho
este espaço maravilhoso. É uma terapia. Descobri o
computador em 1996 e tenho sido autodidata. Quero fazer
um curso que amplie os meus conhecimentos. Sonho em me
dedicar a esta atividade.
Gosto de ler, de ouvir música popular brasileira, de
conversar com os amigos. Adoro praia, sou apaixonada
pela Bahia e lá recarrego minhas baterias.
Sinto-me livre usando jeans, camiseta e tênis. Sou
discreta no vestir.
Gosto muito do azul, mas não desgosto das outras cores.
Perfume gosto dos suaves.
Bebidas não gosto de Campari. Acho o chopp uma delicia e
o vinho não fica atrás.
Comida, detesto fígado, gosto de peixe, camarão,
caranguejo, frango, massas e saladas. Carne vermelha só
bem passada. Não gosto de cigarro, a fumaça irrita as
vias respiratórias.
Fui educada na religião católica, me afastei da religião
com a morte dos meus pais, pois fiquei muito revoltada
cheguei a me achar ateia, mas no próprio curso de
Medicina fui encontrando os vestígios de Deus. Acredito
que para uma obra tão perfeita como o Universo, como o
Corpo Humano, só pode existir uma explicação: partiu de
uma perfeição que é Deus. Busquei e encontrei minhas
respostas no Espiritismo, sou espírita e hoje entendo e
aceito todas as intercorrências que tive na vida. Sei
que meus pais não acabaram, estão em outro plano e têm
que continuar a caminhada e os amigos que já partiram
também. A saudade existe mas é doce, não há mais
revolta.
Agradeço a Deus por tudo e também agradeço pela
existência do Portal e dos amigos virtuais alguns não
mais virtuais.
Acho que escrevi muito. Sou isso aí. Tenho uma vida
simples, sou uma pessoa comum, quieta e introspectiva.
Não tive filhos, não me casei, tive encontros e
desencontros e sinto-me bem com a vida que tenho.
Sonho conhecer Paris, Roma, Lisboa e Madri. Tendo
dinheiro, conhecerei o mundo.
Obrigada a todos do Portal dos Cantinhos. Vocês são
maravilhosos e fazem muito bem aos olhos e ao coração.
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Meu email -
bottasdouradoem@uol.com.br
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