
Nasci, em 1947, em São Paulo, no bairro da Liberdade,
num sobrado com 21 cômodos e mais de 50 anos de construção. Papai era
tenente da Força Pública e mamãe, dona de casa. Era a segunda gravidez
de mamãe e a família ficou deveras abalada quando soube que, a meu
irmão, se somariam mais dois bebês. Eu e minha irmã nascemos de 8 meses,
duas semanas depois de mamãe ter recebido a notícia. Papai, num lance de
muita imaginação nos registrou Itaci e Itajaci, o que sempre considerei
ser uma vingança contra a cegonha enlouquecida que duplicara a entrega
numa máquina xerox. Tínhamos mais de 3 anos quando ele começou a nos
distinguir e assim mesmo porque o redemoinho que tínhamos na fronte
diferenciava nossas franjas, jogando-as para lados diferentes.
Quando estava com 3 anos e meio, fui mexer numa
espiriteira no porão de casa e meu vestido de organdi pegou fogo.
Queimei mais de 50 por cento do corpo, com queimaduras de primeiro e
segundo grau. Entrei em coma e o médico avisou meus pais de que eu não
tinha muita chance de sobrevivência e, se sobrevivesse, poderia ficar
deficiente mentalmente. Sobrevivi. Antes dos quatro anos, ainda me
recuperando do acidente, aprendi a ler sozinha, com o auxílio de uma
cartilha velha e uma mãozinha de quem passasse por onde eu estava
deitada, me dizendo qual o som daquela letra ou sílaba que eu não
conhecia. Num dos primeiros livros que ganhei, uma recompensa pelo
feito, a história estava também em Espanhol num dos lados da folha e eu
lia em Espanhol, da mesma maneira que lia em Português, sem perceber
diferença. Aos 6 anos, conversava com uma colega recém chegada da
Itália, que só falava em italiano e, segundo ela, meu Italiano era bom –
eu o aprendia com ela, enquanto conversávamos, sem perceber. Logo, o
médico deve ter ficado só para ele com aquele problema mental.
Fiz o curso Normal, não porque quisesse fazê-lo, mas
por que os cursos de Química Industrial que havia em São Paulo eram
todos em colégios particulares e não havia muito dinheiro sobrando em
casa. Eu já estudava no Caetano de Campos, desde o segundo ano primário
e fiquei por lá mesmo, visto que seu Curso Normal era considerado um dos
melhores do estado. Quando me formei, já estava casada com meu primeiro
marido e minha filha Mariza já tinha 8 meses. Naquele tempo, casava-se
cedo e eu me casei aos 17, depois de ter prometido a minha mãe que
terminaria o curso.
Depois de formada, prestei concurso para professora,
mas o Estado demorou a chamar. Nesse ínterim, fiz um concurso para o
INPS, tendo passado em primeiro lugar. Trabalhei dois anos na esfera
federal. Em 71, quando minha filha estava com 5 anos, separei-me de meu
marido, prestei concurso para professora primária na Prefeitura de São
Paulo e comecei a trabalhar alguns meses depois. Fiz Faculdade de
Letras, pois sempre gostei de escrever e pensava em me tornar escritora.
Não tive, entretanto, a força de vontade para isso. Como bico, eu fazia
traduções de livrinhos de bolso e manuais de máquinas fotográficas, em
qualquer das línguas em que eu era fluente: Espanhol, Francês, Italiano
e um Inglês mocorongo que era bem passável para traduções técnicas em
que se usa dicionários especiais. O engraçado é que eu não falo nenhuma
dessas línguas, pois sou muito inibida, detesto errar e sei que minha
pronúncia há de ser horrível. Também não tenho o ouvido educado para
conversar nessas línguas, exceto em Italiano e Espanhol.
Terminando a faculdade, prestei outro concurso para o
Estado, desta vez como professor nível III e em 76 comecei a lecionar
Português para as últimas séries do primeiro grau e Literatura para o
segundo grau, enquanto fazia um curso de mestrado que não cheguei a
terminar. De pós-graduação tenho apenas uma especialização em Redação em
Língua Portuguesa.
Em 1977 eu me casei com o Rui, que era, então,
capitão da Polícia Militar de São Paulo. Um pão doce. Tivemos a Lu,
minha segunda filha, e logo em seguida eu tive uma trombose na mão
esquerda. Fiz uma simpatectomia que durou 10 horas, pois furaram o meu
pulmão durante a intervenção, e pensei que estaria bem outra vez, quando
exames posteriores acusaram um coágulo na carótida esquerda
(provavelmente o mesmo que estava na mão) e a espada de Dâmocles
pairando sobre minha cabeça: eu poderia morrer ou me transformar em
espinafre no momento em que esse coágulo se movesse, pois estava bem
próximo ao cérebro. Não pude voltar a trabalhar e aos 35 anos estava
aposentada por invalidez – é antipedagógico morrer em frente aos alunos.
Mudamos para Santos, quando o Rui foi transferido
para cá. Passei 6 anos de cama, mal me levantando dela até que fiz uma
cirurgia espiritual. O engraçado é que sempre fui espírita, mas nunca
acreditei em cirurgias espirituais. Fiz duas e o coágulo desapareceu. Um
mês depois das cirurgias, fiz meus exames de controle e nada foi
constatado. Voltei a minha vida normal e engravidei do Júnior 3 meses
depois. Naquele ano, quando o Jr nasceu, Mariza com 20 anos se formou em
Enfermagem, sua primeira faculdade, e Lu tinha 7 anos e estava no
segundo ano primário. Minha família estava completa.
No ano seguinte, Mariza foi fazer Medicina e nós nos
mudamos de Santos para Jundiaí, onde ela ia estudar. Passamos um ano lá
e voltamos para Santos, deixando Mariza já com toda a estrutura para
morar sozinha. Quando voltei, comecei a fazer cursos de pintura,
artesanato e culinária, enquanto me dedicava a meu hobby de toda a vida:
ler. Uma ocasião em que precisamos mudar para um apartamento menor, tive
que vender meus livros, com muita dor no coração. Passavam de doze mil e
tive que vendê-los aos lotes em vários sebos de Santos e São Paulo.
Nenhum deles tinha deixado de ser lido. Às vezes, me pego imaginando
quantos livros já li, pois, fora esses, li muitos de bibliotecas ou
emprestados de amigos e parentes, sem contar os que li na casa de meus
pais. Agora, em casa, não os deixo acumular. Só guardo os que quero
reler e meus livros de culinária, uns mil e duzentos, ao todo, sendo
seiscentos de culinária.
Em 1995, comprei um computador para as crianças e foi
mexendo nele que aprendi a usar os vários programas. Apaixonei-me pelo
Photoshop e comecei a fazer trabalhos de recuperação de fotos. Encontrei
um verdadeiro filão de clientes entre os nordestinos que trouxeram
consigo fotos 3 x 4 de mães e avós, a maioria com carimbos dos
documentos de que se originavam. Perdi a conta do número de carimbos que
apaguei e do número de fotos que ampliei. Às vezes, trabalhava 4 ou 5
horas numa única foto. Lembro-me de uma foto que me deu o maior trabalho
para refazer, um olho que estava quase que irremediavelmente manchado
por um carimbo. Depois do trabalho pronto, o senhor que veio apanhá-la
chorou, dizendo que sua mãe havia de adorar ver a foto tão perfeitinha,
sendo que ela era cega daquele olho e a mancha que havia nele era sua
tristeza. Eu não sabia se ria ou se chorava.
No mesmo ano de 95 tive que comprar meu próprio
computador, pois as crianças reclamavam que nunca era a “vez” delas,
apesar de eu usá-lo mais de madrugada. Entrava na Internet e ficava
pesquisando sites de culinária por aí. Mesmo nas línguas em que era mais
fluente tive problemas para identificar ingredientes os quais também
pesquisava pela Internet. Colaborei com vários sites brasileiros e
acabei conhecendo um santista que era o proprietário, webmaster e tudo
mais do Cybercook que tinha umas 50 receitas e seis meses de existência.
Em 97, mandei-lhe meu caderno de receitas que estava digitando aos
poucos, o que aumentou bastante seu banco de dados e o levou a me
convidar para me associar a ele e outro amigo. Abrimos uma firma e
trabalhei meses sozinha, no computador e na cozinha, cerca de 12 ou 13
horas por dia. Além de pesquisar e digitar receitas e responder e-mails,
eu cozinhava e fotografava os pratos para o site. Em quatro meses, o
banco de dados possuía mais de mil receitas, tínhamos várias sessões e
estávamos na UOL.
Um ano e meio ou dois anos depois, a UOL comprou
metade do site e éramos profissionais de fato. O site, então com dez mil
receitas, começou a dar muito dinheiro. Foi daí que meus sócios
resolveram ficar com o dinheiro só para eles. Como havia um item no
contrato que permitia que dois de nós tomassem iniciativas sem a
anuência do terceiro sócio, simplesmente me puseram de lado, sem pagar
minha parte e contrataram uma estagiária, uma cozinheira e um fotógrafo
iniciante para fazer o meu serviço. Claro que 3 profissionais meia boca
ganham menos que uma sócia. Levei 3 anos numa pendenga com a famosa
Justiça brasileira para que pagassem a minha parte o que aconteceu
somente 20 por cento pois foi o que consegui receber: um quinto do que
valia a minha parte. Nesses 3 anos, curti uma depressão.
O que me fez sair da depressão foi o PSP. Minha irmã
já estava, havia dois anos, em grupos do programa e sempre me convidava
para entrar neles. Ela já era muito boa em PSP e eu, devido à depressão,
achava que não me sairia bem. Um dia, através de uma amiga do tempo do
Cybercook,, encontrei o Nosso Cantinho. Mandei um e-mail para Helena,
pedindo minha inscrição e explicando que eu tinha uma irmã que era fera
no assunto e que queria aprender, longe da tutela dela. Fui inscrita e,
muito fominha, acho que demorei uns 4 ou 5 meses para terminar os 3
cursos. Quando contei a minha irmã que eu estava no Cantinho, já estava
quase terminando os cursos. Só não terminei o de Assinaturas porque eu e
o Animation não somos muito amigos...
Daí por diante, entrei em vários grupos e fiz alguns
cursos, por aí, mas sempre me mantendo ligada aos Cantinhos. Voltei para
fazer formatação, saí para trabalhar nos meus scripts de PSP, voltei
para o curso de Front Page. Agora estou de volta ao Cantinho da
Formatação, com Zoia, minha amigona. Espero contribuir com alguma coisa
que tenho aprendido por aí, principalmente dos grupos americanos, onde
meu nome é mais conhecido em razão de meus scripts para PSP – uma nova
forma de ensinar a fazer coisas bonitas, sem ter que digitar tutoriais.
Estou aprendendo também, num grupo americano, a escrever scripts para o
Outlook, scripts para stationeries. É bem difícil e eu espero não
desistir do curso antes de terminá-lo. Tudo tem que ser perfeito e
medido. Não é mesmo coisa para sagitariano.
Tenho um site só sobre scripts de PSP.
Está atrasado e eu já tenho uma boa parte da atualização, mas estou sem
tempo para terminar. Se quiser dar uma olhadinha, o endereço é:
http://www.pspscriptsbr.net/
Estes são papai e mamãe, quando
jovens:
Mamãe era muito bonita, não era?
Agora, o maridão, numa foto atual:
Ele odiou a foto, mas não faz mal...
Não tenho outra recente e boa. Já reparou que depois que se
envelhece, nenhuma foto fica boa?
Agora, os filhos:
Esta é Mariza, a mais velha. Foi
tirada no dia da festa das Mães, no colégio.
Leandro estava infeliz porque não
queria dançar (e não dançou) na festinha, mas Ma está ótima
na foto.
Esta é Lucília, no dia de seu
casamento, dia primeiro de julho p.p.
O nome do noivo é Marcos Antonio, o
Marcão, quase dois metros de noivo.
Agora o Jr:
A foto está feia e velha, mas não
tenho novas dele, pois detesta fotos.
Agora o bichinho, Billy, um scottish
terrier tão preto que mal dá para ver os olhos.
Itaci
Caldeira - alv.costa@terra.com.br