Nossos Cantinhos tem o prazer de apresentar à todos...
Maria Odila Riberi Lobo Goulart

 

Sou mãe. Mãe de cinco. Na verdade deveria ser de oito.

Casei quando ainda estudava Direito. Grávida, larguei do curso, que não gostava, e fui curtir a gravidez. Passei péssima. Vômitos e febre quase que nos nove meses. Tive Zeca, parto normal, filho que chorava demais. Talvez por ser primeiro filho e eu sua primeira mãe.

Depois tive um aborto espontâneo, outro aborto e um terceiro, retido.

Feita a curetagem, médico receita o óbvio. — Fique tranqüila, tome estas vitaminas e quem sabe ano que vem te libero para novo filhote.

Não fiz nada, mas também fiz tudo. Tomei as vitaminas e fui fazer faculdade. Hotelaria. Curso feito com quase louvor. Poucas as mulheres, naquele curso feito há mais de 20 anos. Nas aulas práticas tudo o que não precisava era ficar grávida. E porque nasci teimosa, fiquei.

Grávida alastrada. Não engordo mais que o permitido, de nove a dez quilos. Mas a bacia, essa pequena herança ítalo-baiana, fica linda.. cabem 3 de mim em mim quando estou grávida.

Não tive nem com disfarçar. Fui receber meu diploma apoiada, vésperas de parir. Como na outra vez, passando muito mal na gravidez.

E Beto nasceu, de cesárea, porque estava sentado. Nasceu com luxação congênita nas duas pernas. Ou, pela tecla SAP, o quadril dele não tinha acabado de fazer a curva que suportaria as pernas. A madrinha, pediatra, a que tinha sido minha pediatra, tia por adoção de vivência, não deixou que operassem. Beto então usava quatro fraldas para que ficasse com a perna bem aberta, em forma de um U ao contrário.

Desta época lembro de ter o braço dolorido. Trocava esse menino de 2 em duas horas e meu varal era uma sucursal da ONU, repleto de bandeiras brancas tremulando ao vento, dia e noite. Esse pobrezinho nem chorar sabia. Gemia, baixinho, mas não conseguia dormir. Canção de ninar para ele? O Arnesto nos convidou, prum samba ele mora no Brás...

E eu ia, cuidando de Zeca, cuidando de Beto e cuidando de mudar de casa. Tínhamos comprado nosso apartamento.

Comecei a ter cólicas, vômitos. Não podia estar grávida, pensei, estava amamentando Beto. Falei com o médico e ele confirmou. Que dificilmente quem amamenta fica grávida. Não me preocupei. Fui arrumando a mudança. Encaixotando toda uma nova vida de ainda recém casados de quatro anos e seus dois filhos. A vida era boa para o marido e eu. Mesmo com as perdas. Vivíamos bem.

Mas encaixotar cansa, dá dor nas costas. E na barriga também. Beto, com as pernas quase boas do tratamento, começava a andar. Cansa também andar curvada para apoiar o moleque. E de tanto cansaço acabei no pronto socorro, verde e com dor generalizada.

Minha dor chamava gravidez. Essa, tirando as dores de realmente fazer esforço físico, foi ótima. Estava muito feliz. Dois filhos e uma gravidez tranqüila? Mudando de casa? Era tudo o que queria.

Nem tanto assim. Na hora do parto, nova cesárea, o médico, não o meu já conhecido, um do convênio, estava bêbado. Fez truncado o corte da cesárea, tive hemorragia, e o nenê, quando ele retirou da barriga, deixou cair no chão. Aumentaram minha sedação, que, de susto, não funcionou. Estava bem acordada. E vi. A dificuldade na respiração. O desespero de quem dele cuidava.

Três dias depois meu menino, registrado José Antonio, faleceu. Na necropsia, alência múltipla, causada pela queda, comprovada, e pelo parto precipitado que afetou o pulmão de meu eterno bebe.

Não se perdem filhos impunemente nesta vida. Nosso casamento, já não tão bom, foi dando marcha ré. Muito difícil entender isso de ir antes dos filhos. Qualquer que seja a idade deles, sempre achamos que primeiro morreremos nós. Bem mais tarde, nossos filhos.

E depois que esse filho se vai o que mais queremos é nova gravidez. Mas nem tão querida assim porque o medo agora é residente. Medo de abortar, espontaneamente. Mas por outro lado se não abortar e a gravidez conseguir ir à frente, tem sempre aquela história estranha da barriga crescer e o nenê estar morto lá dentro. É o tal do aborto retido. Mas se passar tudo isso, quem me garantia que desta vez, o nenê venceria até o médico. Um medo tão grande que mudei do médico antigo, que estava viajando na época do desastre.

Depois de um ano de tratamento, para resolver os problemas do parto mal feito, triste notícia: Filhos, não mais.

Tentei mais um ano. Nada

O máximo que consegui foram cistos, e cólicas de cair no meio da rua. Operar a única solução . Mas eu era teimosa. Outubro de 1986 e eu ainda querendo ficar grávida. Estava. Achei que sim. Fazer exame, negativo. Médico suspeitou de provável endometriose.

Mais essa...

Em março de 1987, hospital. Crise aguda de dor. A dor dessa vez era outra. Um quisto chamado nenê. Que não veio fácil assim. Com quase 2 meses de gravidez comecei o trabalho de perda, novamente. Choro foi pouco. Disse ao médico que se perdesse, não faria cauterização porcaria nenhuma e se ficasse, nem morto o nenê nasceria antes do tempo.

Bobagem claro. Quem sabe de filhos é Ele, não eu.

Mas este novo médico, especialista em fazer mulheres ficarem grávidas... de seus maridos, claro, apareceu com uma novidade. Uma acupuntura de contrair os músculos da pélvis. Sim, porque aos quase dois meses entrei num trabalho de parto bem atrapalhado. Os ossos se abriram como na hora de parir. Sem nada para sustentar mãe e filho, o mais provável era abortar a qualquer hora. Se era pra segurar o nenê, lá fui eu. Ser dolorosamente espetada duas vezes ao dia. O músculo ficando contraído segurava o útero por quase 12 horas. Competia a mim fazer também o repouso.

Mas como fazer repouso com um filho de sete anos e outro de quase quatro?

Que arteiros ainda conseguiram quebrar as duas pernas, os dois, ao mesmo tempo. Fui levando. Filho da barriga e filhos de fora.

Teté nasceu de cesárea, primeiro de outubro. E com ela, fui laqueada. Nada mais de filhos. E ainda fiquei grávida. E mais uma perda. A oitava gravidez para um escore de 3 filhos vivos.

Com um ano e meio Teté, menina bem doente de problemas respiratórios, apareceu com tuberculose. Ao mesmo tempo que Zeca teve artrite reumatóide deformante juvenil.

Cuidar dos dois, cuidei. Mas Teté, disse o médico, não poderia ter filhos. Os remédios que salvam da tuberculose geralmente atrofiam nosso fertilizadores naturais, me disse ele. Não fiz conta. Cuidei dela. Marido sempre foi ausente em grandes crises. E nas pequenas também. Filhos, segundo ele, eram problema da mãe, não dele.

Mudamos do apartamento para cuidar da sogra, viborenta como só as sogras sabem ser.

Por puro desgosto, morando na casa da sogra, me dei ao trabalho de me engordar, dobrei o peso em seis meses.

Estava agora fazendo faculdade de música, tocava até bateria para a filha pequena. Na verdade estudava órgão. Depois fui fazer história.

Mas sempre preocupada com a filha que não poderia ter filhos, com o filho perdido. Cheguei no marido e disse que queria adotar. Menina. Ele não me deu trela.

Sou teimosa esqueceram? Continuei até que entramos na fila. De quem quer adotar.

Nove meses e duas semana depois chegou Mamali. Com candida, não conseguia se alimentar. Foi minha melhor gravidez. Em cinco minutos eu já era mãe de criança parida. Adorei isso. Mas a boa e rápida gravidez transformou-se num dolorido cuidado para essa guria conseguir comer. Não bastasse isso, criança adotada necessita fazer exames. De doenças venéreas e de AIDS. Conversei com o marido dizendo que ela tivesse AIDS ou não, continuaria nossa filha. Quinze os dias agonizantes. Não ela não tinha nada. Quase nada. Só umas coisinhas bobas de fácil tratamento.

Aos um ano e dois meses de Mamali liga o juiz pra dizer que nasceu a irmã dela.

— Vocês querem adotar?

Eu quis. Adotamos. Lulu. Que já veio com apelido, a Luluzinha do desenho, mas sem nome, porque só depois de oito dias chegamos num acordo. Prematura, ainda não estava com o aparelho digestivo completamente amadurecido. Enorme dificuldade para engolir. Foram meses de comer/vomitar/banho/mamadeira/novosvômitos... e assim íamos. Eu e meu cinco filhos

O casamento? Esse ia mal. Tão mal que o marido começou a beber. Ficou uma pessoa ruim.

Separamos.

Tonta, acreditei em melhoras, mesmo em quem nunca fez nada para que elas se realizassem.

Recasei. Uma festa maravilhosa. Filhas adorando e eu também. Ruim mesmo só o noivo, o antigo marido, ainda ligado na bebida.

Separação, desta vez definitiva. E porque a lei brasileira é bem estranha. Eu, separada judicialmente, acabei viúva quando ele, dois anos depois, faleceu.

Parece muito, e quase foi. No frigir dos ovos, uma vida bem confusa, sem limites definidos mas que eu, conivente, fui vivendo junto.

À época da primeira separação, descobri o computador. E logo em seguida as salas de Chat. E como todas as mulheres carentes, me apaixonei pelos nicks masculinos. O primeiro, um guri de vinte e poucos anos. Fiquei horrorizada comigo mesma. Depois, veio a vida e fui entendendo de carência, de homens de idades várias, de namorados, e até de transar, somente.

Enormes mudanças para quem viveu a vida só de mãe. E com todas essa mudanças que foram acontecendo lá pelos 40 anos, voltei a uma coisa que foi sempre a minha paixão, a escrita.

Fiz cursos, Entrei em uns, fui selecionada para outros. O suficiente para melhor e bem meu modo de escrever.

Abri um blog. Com meu nome pela metade... rs.. Maria, que sou mesmo, e Guimarães, herança da avó paterna. Deu certo. Faço literatura. Que ás vezes é realista, sou eu mesma a me mostrar, e outras muitas vezes, sou eu mesma a me recriar.

Não sei viver sem música — adoro jazz e bossa nova — e nem sem a Net. Fiz amigos precioso nas salas de Chat e nas listas que freqüento.

Adoro a Internet mas hoje em dia já aprendi a ficar mais longe um pouco A Net é uma descoberta viciante. Estou em lista de literatura, de formatação e numa lista maravilhosa onde bordo para crianças com graves doenças. Grande parte, doenças terminais. Fiquei muito feliz em começar esses Acolchoados com amor.

Adoro papear nas salas de Chat. Não acredito mais em príncipes, mas gosto dos sapos encantados. Prefiro amores rápidos a longos e entediantes. Sei que tudo nessa vida tem prazo de validade e que quando começamos a viver não nos dizem isso...

Sou feliz. Não deixo que me magoem, nem admito grosserias.


       

 

Maria Ódila - sapecamadalena@uol.com.br